CAPÍTULO CINCO..
Depois de vinte longos minutos, seu marido, o
cara de pau, apareceu dizendo que teve um desarranjo estomacal. Marcos deveria
ser ator, pensou sua mulher, pois mantinha a mão na altura do estômago e o
corpo encurvado, dando veracidade ao que dizia. Os amigos, condoídos da
situação, o aconselharam a procurar um médico. Porém, ele melhorou o suficiente
para se recusar a visitar o médico, dizendo que só precisava descansar um pouco.
E, olhando para Clara pediu que chamasse os filhos para irem embora.
A mulher levantou-se e foi chamar as crianças,
dizendo que compraria lanches para todos, já que o almoço não aconteceria. Depois da aquisição dos lanches, a família
voltou para casa em silêncio. As crianças estavam cansadas e o casal parecia
distante; havia uma nuvem negra no ar.
O homem estava compenetrado em seus
pensamentos e Clara imaginava que o motivo seria a secretária; deveria estar
armando alguma coisa. Ele não poderia, em hipótese nenhuma, imaginar que ela
presenciara o amasso, entre ele e sua amante, no pátio dos fundos do
restaurante. A mulher só pensava em vingança, ele merecia um par de chifres,
iguais aos dela. Porém, Clara não era desse tipo de mulher, teria que refletir
muito antes de tomar qualquer atitude.
Marcos deitou-se no sofá do escritório e Clara
foi para seu quarto chorar escondido do marido e das crianças. João e Renata
passaram à tarde no computador e vídeo game, não perceberam que sua mãe estava
triste. Clara tomou banho e toda arrumada desceu para providenciar o jantar,
que Sara deixara pronto no freezer. Chamou o marido com um toque em seu braço e
deixando sua mágoa de lado, perguntou se estava melhor. Ele disse que sim e foi
se preparar para o jantar.
O marido parecia estar alegre e puxou conversa
com a mulher e os filhos; parecia o bom pai de família que sempre fora. Fazia
planos para passeios com as crianças e sua mulher. Ele conseguiu descontrair o
ambiente levando as crianças a dar boas gargalhadas. Clara só observava e
refletia sobre os últimos acontecimentos. Parecia que a partir desse dia
haveria uma representação teatral, onde ela e o marido fingiriam uma harmonia
inexistente.
– Como ele conseguia fingir tão bem, ou será
que tentava compensar o remorso da traição sendo amável com sua família?
Pensava a mulher desconfiada.
A semana seguinte correu normalmente; o marido chegava tarde e ia
dormir, dizendo estar cansado. Clara sentia-se transparente, pois, parecia que
Marcos não a via; olhava através dela. Ela não queria perder as regalias que
tinha e ele apenas queria se divertir com a amante, mantendo a esposa em casa,
para mostrar aos amigos e acompanha-lo quando necessário. Para um homem de
negócios era bom passar credibilidade, mantinha seu nome íntegro no meio
empresarial, onde a disputa é cerrada. Clara era a mulher ideal; fina, educada
e concordava com tudo que ele falava.
Ela passava os dias refletindo sobre sua situação, se virasse a “mesa”,
isto é, dissesse tudo que estava entalado em sua garganta, não poderia voltar
atrás. Haveria o rompimento e ela teria que viver precariamente e se aceitasse
a situação teria que se anular como pessoa.
Procurou
a ajuda de Deus passando a frequentar a Igreja e até se aconselhou com o
pároco, que era contra a separação. Recorreu a Bíblia e nada mudava; Marcos
estava cada dia mais distante. Passava os finais de semana viajando com Selma e
nem fazia questão de esconder. Quando Clara desabafou e disse que não aguentava
mais, ele disse que pediria o divórcio se ela quisesse, porém deveria pensar
muito, pois teria que viver com a pensão ou trabalhar para viver.
Ele
já não a desejava mais, porém, era a mãe de seus filhos e a queria como mulher
para acompanha-lo em ocasiões especiais. Exigia fidelidade e ela continuaria
desfrutando de tudo e cuidando dos filhos. A mulher levou um choque, era uma
forma de se anular como mulher o que Marcos lhe propusera; seria apenas uma
mulher de papel.
Ela era casada no papel, mas não tinha marido na cama. A mulher não
conseguia dormir, olhava a cama vazia e chorava; o marido se mudara para o
quarto de hóspedes.
Um texto de Eva Ibrahim.
Continua na próxima semana..