O SAPATO
A casa grande com jardim e
dois carros na garagem era um sonho antigo de Fábio, que finalmente se
realizara. Pudera! Pensava o homem, trabalhara muito para concretizar seu sonho;
estava feliz. Ele tinha uma família bonita; uma mulher amorosa e dois filhos
saudáveis. Fábio trabalhava em uma multinacional onde ganhava um bom salário e
quando tudo parecia correr bem apareceram às tentações. Com a prosperidade
surgiram as mulheres dando em cima dele; era um homem vistoso e cheio da grana.
A princípio ele se
esquivava, mas com a insistência começou a sair com algumas conhecidas e
colegas de trabalho. Uma delas, Rosana, conseguiu mexer com seu coração. O
homem sentia-se atraído por ela e a moça correspondia, tornando-se sua
companheira assídua. Fábio e Rosana foram ao motel na sexta-feira após o
expediente e passaram horas se amando loucamente. O homem satisfeito e feliz
chegou à sua casa querendo descansar, porém, encontrou a sua sogra que viera
visita-los.
Pego de surpresa com a
visita inesperada, Fábio sentiu que teria que ser agradável com sua sogra, para
que sua esposa não suspeitasse de sua traição. Ele queria dormir cedo, estava
nervoso por ter que encarar a sogra, porém, Kátia, sua esposa, tinha outros planos
e ele estava incluído. O homem teria que conduzir as duas mulheres ao
supermercado. Não teve jeito e ele saiu com o automóvel levando mãe e
filha; elas queriam fazer compras. Quando estavam no meio do percurso, ao
descer uma ladeira, uma coisa bateu no pé de Fábio e instintivamente ele olhou
para ver o que estava ali no piso do automóvel. Correu um frio pela sua espinha quando viu um pé de sapato de mulher.
-Seria de sua amante? Não se lembrava de ter visto os sapatos que Rosana usava naquele dia; não era de reparar em sapatos.
Quem deve treme e ele estava
com a consciência pesada pelas inúmeras traições que vinha cometendo e
imediatamente pensou que aquele sapato poderia ser de Rosana. A moça esquecera o sapato no
carro quando a levou para casa. Fábio ficou nervoso, teria que se
livrar do sapato antes que sua mulher percebesse a prova de sua traição.
Dirigiu por alguns
quilômetros evitando as subidas para que o sapato não voltasse para trás, teria
que arquitetar um plano para se livrar daquele instrumento de acusação. O homem
avisou às duas mulheres, que conversavam no banco de trás, que iria parar no
acostamento para ver se tinha um pneu furado, pois ouvira um barulho na roda.
Mãe e filha disseram não ter ouvido nada, mas ele insistiu e parou perto de uma
grande construção. Dizendo para elas olharem a construção, que ali seria um
futuro supermercado, ele abaixou-se, pegou o sapato e jogou para fora do
automóvel. Depois saiu satisfeito, deu a volta no veículo e voltou dizendo que
se enganara. Com um sorriso alegre sentou-se ao volante, estava livre da
prova do crime.
Seguiram em frente e quando
chegaram ao destino, às duas mulheres começaram a procurar alguma coisa por
debaixo dos bancos. Fábio perguntou o que estava ocorrendo ali e sua esposa
disse que elas não achavam o sapato de sua mãe. O homem segurava o riso, havia
jogado fora o sapato da sogra e não de sua amante. Não poderia deixar que
percebessem o engano, iria procurar o sapato também. Se a velha "coruja" descobrisse a verdade, jamais o perdoaria; teria que dissimular.
Empenhou-se na procura, até
o banco do automóvel ele tirou e nada de aparecer o calçado da velha senhora. Fábio sabia
que não estava ali e divertia-se fazendo as duas de tolas. A sogra não se
conformava, dizia que seus pés estavam doendo porque os sapatos eram novos, por
isso os tirara dos pés.
– Como um deles poderia ter sumido? Ponderava a mulher, já que não havia buracos no assoalho daquele carro novo.
As duas mulheres se
entreolhavam atônitas. Reviraram o automóvel e nada do sapato aparecer.
Finalmente conformadas disseram que voltariam no outro dia para as compras.
Porém, o homem fingindo ser um bom genro se prontificou para ir comprar
chinelos para a sogra poder fazer as compras com sua esposa. Fábio adentrou ao
supermercado sorridente, não acreditava no ocorrido, o passeio estava
divertido.
Durante o jantar ele fingiu estar
pesaroso pelo ocorrido e prometeu procurar melhor no dia seguinte; teria que
consolar sua sogra. O homem foi dormir aliviado, tomaria mais cuidado, essa foi
por pouco, Ufa!!!
Um texto de Eva Ibrahim,
inspirado em um conto popular.